A jornalista Ana Amélia Filizola, diretora da Unidade Jornais, da Gazeta do Povo, liderou a transformação estratégica dos maiores veículos de comunicação do Paraná, fundado em 1919, em Curitiba, conduzindo a migração do modelo tradicional para uma operação
digital inovadora, com foco em sustentabilidade, relevância editorial e novos formatos de monetização. Ao MEX ela falou sobre como foi esse processo. Confira!
MEX BRASIL – Ana Amélia, quando você percebeu que a Gazeta do Povo precisava
de uma transformação qual foi seu sentimento: medo ou esperança?Ana Amélia – As duas coisas. Havia um caminho, mas um medo também grande de tomar a decisão correta. Tínhamos uma história de muitas décadas. O desafio da transformação de uma empresa é certamente muito maior do que o da criação.
MEX BRASIL – Por algum momento você pensou que essa transformação pudesse desestabilizar a cultura já consolidada da empresa?
Ana Amélia – Sim, essa era uma preocupação desde o começo. A revolução digital nas empresas não é apenas uma revolução tecnológica, mas uma revolução de cultura. Eu e meu irmão fizemos um mergulho nas empresas do Vale do Silício, para
entender quais eram as tendências que se aproximavam. A gente precisava de coisas diferentes das que nos fizeram chegar até aqui. Os valores continuavam muito explicitados. Então toda essa transformação digital exigiu pensar no negócio, nos
colaboradores que estariam conosco, que fariam parte disso, e também nos que não estariam mais conosco ao fim da jornada de transformação. Iríamos desativar todo um parque gráfico. Não sabíamos se iríamos acertar tudo, mas se errássemos algo, era preciso errar e acertar rápido. Olhar o caminho agora, passados sete anos de nossa mudança, parece fácil. Mas lá atrás
tivemos decisões muito difíceis.
MEX BRASIL – Como você disse, transformar uma organização tradicional não é apenas sobre tecnologia — é sobre mudar mentalidades. Qual foi o momento em que você percebeu que precisava mudar primeiro você mesma, antes de exigir qualquer mudança dos outros?
Ana Amélia – Certamente essa também foi uma mudança interior muito grande. Eu sempre fui muito centralizadora. O passado parece que nos exigia isso. Mas foi preciso entender que era necessário traçar as linhas que pretendíamos chegar e deixar as pessoas trabalharem com autonomia. Os novos tempos exigem uma nova velocidade. O processo de desprendimento, não foi fácil. Mas também fui me transformando com todo esse processo e tenho certeza de que isso foi
muito bom para o negócio, mas também para mim, particularmente.
MEX BRASIL – Toda transformação digital tem custos. Quando você olha para os números de assinaturas digitais que cresceram, podemos dizer que os assinantes digitais são mais rentáveis do que os impressos ou estamos em uma fase ainda de construção de receita?
Ana Amélia – O assinante impresso trazia mais valor, mas a margem era menor. Hoje o valor do digital é menor, porém nós tivemos uma ampliação geográfica muito maior. O físico nos limitava a ser um jornal local. Hoje não, com o digital podemos
alcançar outras regiões o que também nos traz mudanças editoriais. Atualmente, 66% de nossa audiência vem de fora do Paraná. Hoje temos 11,7 milhões de usuários únicos e já alcançamos mais de 143 mil assinantes digitais. Somos o terceiro maior jornal do país.
MEX BRASIL – Além dos resultados mensuráveis que a Gazeta do Povo alcançou, o que você ganhou pessoalmente nessa jornada? Como você é diferente hoje?
Ana Amélia – Aprendi e estou aprendendo a ter desapego das certezas do que tinha no passado. O mundo está muito rápido, girando de forma cada vez mais enlouquecida. Só não negocio meus valores, mas entendi que posso estar aberta a ser diferente. Se o mundo for totalmente de uma comunicação em vídeo, não mais em texto, isso não me incomoda mais. Eu desapeguei das certezas que tinha no passado. Sinto que podemos nos adaptar a tudo o que vier.
MEX BRASIL – A Gazeta do Povo foi transformada, mas vocês não vão parar por aqui, certo? O que você enxerga além dessa jornada?
Ana Amélia – Os números são importantes, mas nossa missão é muito maior que esses resultados. Se Nós estaremos deixando nosso legado. Me refiro a impactos positivos em todas as áreas, não só na política. Mas na saúde, no trabalho, nos direitos, no potencial humano. Todas as áreas que pudermos impactar favoravelmente. Fugindo da informação
superficial. Nós queremos informação com qualidade, com apuração, com profundidade. Em tempos de Inteligência Artificial, em que tudo parece muito simples, nós queremos continuar transmitindo confiança na informação entregue aos nossos leitores. Isso é inegociável.
MEX BRASIL – Se você tivesse que resumir em uma única lição aprendida — aquela
que é aplicável não apenas na Gazeta do Povo, mas que qualquer pessoa que deseja
gerar eficiência e resultados reais no Brasil deveria saber — qual seria?Ana Amélia – A coisa mais importante que aprendi nesse processo é que para gerir a eficiência e ir além você deve formar uma equipe muito boa para o processo, confiar e ser transparente com suas metas e objetivos. No mais dar autonomia. Entendo que, como gestores, precisamos ajudar o time, retirando os obstáculos do caminho. Convicções consistentes e um
propósito verdadeiro e transformador são, talvez, os pilares fundamentais de uma governança saudável. Ao dar transparência ao processo e confiar no time, a gente se surpreende chegando a resultados muitas vezes até inimagináveis quando você desejou incrementar o processo. Meu conselho se resume em transparência e confiança.
MEX BRASIL – Você teria ainda algo a acrescentar às executivas MEX sobre seu processo?
Ana Amélia – Sim. Em seus desafios particulares tenham coragem, fé e sigam em frente. Se no final não der certo, é porque o momento não era apropriado, mas quando temos convicção de nossas metas, o resultado vai chegar. Se não agora, no momento certo. Avancem, não tenham medo.