O novo papel das empresas e lideranças na gestão de riscos psicossociais.
A partir de 26 de maio de 2026, as empresas não poderão mais tratar riscos psicossociais apenas como um diferencial de bem-estar. A atualização da NR-1 transforma a saúde mental em uma séria questão para o negócio — sujeita a auditorias, fiscalização e multas. Para falar sobre as implicações que essa medida traz, o MEX reuniu suas executivas, no encontro de abril, trazendo dois especialistas no tema: Edélcio Jacomassi, da Jacomassi Consulting, e a também MEX e doutora em Educação Física Birgit Keller Marsili, da BK – Saúde Mental & Performance.
O encontro teve como grande objetivo o debate sobre como o tema irá impactar a vida de pequenas, médias e grandes empresas. As exigências contidas na NR-1, contudo, não são novas, o que muda mesmo é a inclusão dos riscos psicossociais na fiscalização. Duas importantes contribuições foram acrescidas na manhã de apresentações: a participação de Lidiane Stefani, do Sistema Fiep, e a advogada e professora Thais Poliana de Andrade, também executiva MEX, que é especialista em Relações Trabalhistas.

Os números são consideráveis. Segundo dados do Ministério da Previdência Social, em 2025, o Brasil registrou 4,1 milhões de afastamentos do trabalho por doença. É o maior número em cinco anos. Um aumento de 17,1% em relação a 2024. Os principais motivos de afastamento ainda se relacionam à dor física. Mas o que chama a atenção é o número de afastamentos relacionados a transtornos mentais que também bateram recorde em 2025. Foram mais de 546 mil afastamentos por questões de saúde mental. Um aumento de 15% em relação a 2024.
A lista feita pelo Ministério da Previdência considera as doenças que mais geraram concessões de benefício. A maior parte dos afastamentos psicossociais está concentrada em dois diagnósticos: ansiedade e depressão. Juntas, somam 293 mil afastamentos. Isso as coloca como o segundo maior motivo de licença no país, atrás apenas das doenças da coluna. Mas a lista não para aí, entre as doenças psicossociais também estão: transtorno bipolar, dependência química, estresse grave, esquizofrenia e alcoolismo.
A nova regulamentação da NR-1 que entra em vigor em maio de 2026 exige que as empresas identifiquem e gerenciem os Fatores de Riscos Psicossociais Relacionados ao Trabalho (FRPRT) — sobrecarga, pressão excessiva por metas, conflitos interpessoais — com o mesmo rigor dedicado aos riscos físicos e químicos. Líderes experientes já sabem que um colaborador estressado produz menos, comete mais erros e afasta-se por doença. Mas sim, as empresas precisam se preparar para atender às novas exigências legais. No encontro do MEX, o tema foi bastante detalhado. Trazemos aqui um pouco do ponto de vista dos interlocutores no evento. Confira


Em sua fala às executivas MEX, Birgit expôs como a crise de saúde mental pode transformar as empresas brasileiras. O Brasil hoje ocupa o terceiro pior índice de saúde mental global, com um bilhão de pessoas convivendo com transtornos mentais mundialmente e uma em cada três pessoas no Brasil relatando sintomas. “Um terço da vida das pessoas é passado no trabalho. Se esse ambiente não é saudável, nada mais importa”, afirmou.
Doutora em Eduação Física, Birgit aproveitou para conectar a psicologia do esporte — liderança, dinâmica de grupo, estresse e motivação — ao contexto corporativo. E fez um alerta sobre a vigência das novas diretrizes da NR-1: ‘ Não adianta dizer: “Tenho só três funcionários, não preciso.” Todo mundo vai ter que se adequar. A NR-1 não é novidade, mas ganhou um olhar mais amplo e específico e, claro que há diferenças no que será feito e em como será apresentado, dependendo do porte da empresa, mas temos que nos adaptar as novas regras”, conclui ela.
Um dado interessante da apresentação, foi a série de números sobre saúde psicossocial no mundo. Segundo estudos recentes acompanhados por ela e trazidos para o debate da manhã, no Brasil, estamos no terceiro pior índice de saúde mental, ficando atrás apenas da África do Sul e do Reino Unido. Este é o primeiro dado. O segundo: atualmente, 33,5% dos brasileiros — ou seja, uma em cada três pessoas — relatam diversos sintomas relacionados a transtornos mentais. São dados que nos fazem parar e refletir.
“O que era tabu agora é necessário para a saúde organizacional”. Com a NR-1 obrigando todas as empresas a tratar saúde mental com seriedade, Birgit enfatizou que a conformidade é oportunidade: criar ambientes onde pessoas digam “segundou” em vez de apenas “sextou”. “Empresas que criam ambientes verdadeiramente saudáveis não apenas cumprem lei, elas prosperam”, finalizou.
“Um terço da nossa vida é passado no ambiente de trabalho — ele precisa ser saudável. Se o ambiente de trabalho é saudável, temos alta aderência, alta produtividade e motivação.”
Birgit Keller Marsili, doutora em Educação Física, da BK – Saúde Mental & Performance


A nova regulamentação da NR-1, que entra em vigor em maio, determina que companhias passem a mapear riscos psicossociais como estresse, assédio e sobrecarga — e implementem medidas concretas de prevenção. Mas isso é realmente uma novidade? Para responder, ampliamos o bate-papo com o convidado Edélcio Jacomassi. Aqui, ele explica por que a norma não inventa nada de novo e como transformar a obrigação legal em ganho real de produtividade e pertencimento. Confira!
MEX – A NR-1 não é exatamente uma nova norma, mas trata-se de uma atualização, correto?
Edélcio Jacomassi – Isso mesmo. O primeiro ponto é que a norma não traz nenhuma novidade. As empresas, por lógica, já deveriam ter como princípio tratar bem as pessoas. O que percebo é que, muitas vezes, perdeu-se a noção da importância de cuidar da saúde mental e física dos colaboradores, especialmente quando a pressão por produtividade e lucro se tornou cada vez mais intensa. Essa não é uma questão apenas nacional, mas sim mundial.
MEX – Então podemos dizer que os princípios sempre existiram mas nem tudo estava normatizado?
Edélcio Jacomassi – Sim, nem tudo era aplicado. Os princípios sempre existiram, mas nem todas as empresas estavam preocupadas em adotá-los como padrão de ação. Por isso, surgiu a necessidade de estabelecer uma normativa no aspecto jurídico, para determinar: “olha, tem que funcionar pelo menos dessa forma”
MEX – Ao longo desses anos, o trabalho e os trabalhadores mudaram muito. Como nos adaptar a essas novas realidades?
Edélcio Jacomassi – Bom, aqui cabe destacar um marco muito importante: a pandemia. Antes dela, o cenário era relativamente normal, com cobranças normais de produtividade. Porém, durante a pandemia houve o isolamento social, o que trouxe um novo problema: pessoas se sentindo afastadas do ambiente de trabalho, sem interação com colegas ou grupos de relacionamento. O isolamento é, inclusive, um dos fatores de risco psicossocial. Além disso, a tendência de trabalhar mais à distância contribuiu para a mistura entre papéis pessoais e organizacionais, gerando sobrecarga e desgaste. A pandemia, portanto, trouxe um novo olhar para o mundo do trabalho, evidenciando a necessidade de atenção à saúde mental e ao equilíbrio entre vida pessoal e profissional.
MEX – E qual pode ser um caminho para se adaptar à nova norma?
Edélcio Jacomassi – É necessário avaliar a empresa e realizar um diagnóstico sério sobre as condições de trabalho psicossociais oferecidas. O passo seguinte consiste na construção do PGR (Plano de Gerenciamento de Riscos). A partir desse ponto, deve-se elaborar o plano de ação, analisando as causas reais dos problemas, e não apenas os sintomas. A efetividade só é alcançada quando as causas são identificadas e eliminadas. Recomenda-se a realização de dois ciclos de avaliação: uma análise inicial e, após seis a nove meses, uma nova rodada de perguntas para verificar o grau de evolução obtido. Cumprir apenas a legislação não é suficiente; é preciso resolver os problemas de forma concreta. Podem ser criados mecanismos complementares, como canais de denúncia, sistemas de comunicação mais fluidos e espaços de participação para que os colaboradores opinem livremente. Com esse acompanhamento, as empresas conseguem resolver problemas, aumentar a produtividade e tornar-se mais eficazes e sustentáveis, indo além do simples cumprimento de normas.
O evento de abril contou com duas importantes contribuições: a participação de Lidiane Stefani, do Sistema Fiep, e a advogada e professora Thais Poliana de Andrade, também executiva MEX, que é especialista em Relações Trabalhistas. Confira
O apoio do SESI para o processo
‘ O foco da NR-1 é justamente o trabalho preventivo. Pensando no âmbito das pequenas e médias empresas, o segredo é justamente deixar de agir só quando algo dá errado e começar a mapear riscos antes que eles virem problema. Ou seja, o verdadeiro ganho dessa normatização está em incorporar a prevenção como cultura. A NR-1 leva o empresário a conhecer o próprio ambiente de trabalho. Mapear riscos — ergonômicos e psicossociais, físicos, químicos, biológicos, acidentes — e entender o que está acontecendo. Muitas vezes, uma conversa ou uma escuta ativa do trabalhador já resolve boa parte dos problemas. O funcionário que não adoece trabalha melhor, gera menos custos e reduz a rotatividade. O SESI, dentro do Sistema FIEP, existe justamente para dar esse suporte: orientação técnica, treinamentos, apoio na elaboração dos PGR (Programa de Gerenciamento de Risco), análises ergonômicas, LTCATs e identificação de riscos. O foco é a indústria paranaense, mas o olhar vai além do medo e da questão jurídica. É sobre enxergar benefícios reais para a empresa. Estamos à disposição de todos!’
Lidiane Mara Stefani, da Gerência de Segurança, Saúde e Responsabilidade Social do SESI-PR
Fique atento às exigência da normativa
‘Uma coisa importante que precisamos entender — e trabalhamos muito com isso — é o quão complexa essa questão é. O que é estressante para você pode não ser para mim, e vice-versa. Cada caso é individual. De todas as organizações que conhecemos e visitamos, sabemos que existem ambientes saudáveis, e é isso que precisamos assegurar para o colaborador. Ele precisa ser um agente ativo, estar em um ambiente saudável e ter qualidade de liderança. Como a empresa vê isso? Como funcionam as relações trabalhistas? Há muita desinformação. Vivemos numa sociedade onde se pede a “especialistas” do Instagram e do TikTok que validem tudo o que se ouve. Levar isso para as organizações seria um abuso imenso. A NR-1 refere-se a identificação de riscos. Não é um instrumento de diagnóstico médico; não serve para identificar burnout, estresse ou condições individuais. É para mapear riscos ambientais do trabalho. E isso não é novo — as empresas já mapeiam anualmente riscos biológicos, físicos e ruído. O que a alteração normativa trouxe foi a exigência de incluir os fatores de riscos psicossociais associados ao trabalho que podem gerar adoecimento, assim como, por exemplo, já o fazia com o ruído, que pode causar perda auditiva ou produtos químicos que podem levar a doenças. O que observamos é preocupante: se uma grande empresa não define o responsável pelo processo — que precisa ser RH, SESMT, jurídico e operação, numa espécie de guarda compartilhada — o programa simplesmente não funciona. Outro ponto: cuidado com formulários e ferramenta usadas para mapear os riscos na sua empresa, pois uma das exigências é que a metodologia seja validada, mas ela deve ser adequada à realidade de cada empresa. Portanto, não é “um bicho-papão”, mas esteja certo de atender às exigências da norma, evitando punições e outros problemas jurídicos’.
Thais Poliana de Andrade, advogada, professora e também executiva MEX


Em 24 de abril, executivas que fizeram aniversário no 1º quadrimestre de 2026 foram recepcionadas na Devis Clinica, pela também MEX, Mariana Hammerschmidt, para um café. Os encontros com grupos menores do MEX, foram instituídos como um momento adicional para fortalecer o network e permitir um conhecimento ainda melhor entre as participantes. A seleção se dá pelo aniversário e/ou pelo ingresso ao MEX no período vigente. Neste primeiro encontro foram homenageadas as MEX aniversariantes de janeiro, fevereiro, março e abril.
Pelo sexto ano consecutivo foi lançada a Revista MEX. O relatório de atividades do ano reúne todos os informativos mensais que são elaborados para documentar eventos e aprendizados ao longo de todo o ano de trabalho. O documento é impresso com o patrocínio de várias empresas participantes do MEX (veja acima), e a publicação é distribuída a todas as integrantes e também serve para apresentar o grupo às autoridades e convidados que vêm falar ao MEX nos anos subsequentes. “Todas as vezes em que fazemos a publicação ficamos admiradas com o volume de atividades produzido. Ao longo dos meses não temos a dimensão deste trabalho. Já são 20 anos ininterruptos de trabalho, que serão celebrados em agosto”, destaca Regina Arns, presidente do MEX
